
Ribeira Grande (Cidade Velha), Santiago, Cabo Verde
'Martim ficou a ver o irmão, até o carretão desaparecer ao cimo de uma ladeira pequena e depois de uma curva, e por muito que a consciência lhe mandasse sentir algum arrependimento, na cara apenas o sorriso de quem tinha feito passar pedras por ouro. Caga-Chumbo olhava o capitão-mor com a admiração dos submissos, não lhe percebendo o comportamento. Na cabeça do rapazote pouco sentido fazia que alguém que comandava uma armada, com ordens reais de rumar ao Novo Mundo, se quisesse fazer passar por um mendigo qualquer sem pai. Nisto pasmava enquanto seguia os passos de Martim até ao centro da vila. Já o fidalgo ia seguindo o barulho e o instinto e começou a subir uma rua onde passavam carros de bois lado a lado sem moléstia, ladeada por casas de dois andares, que se abriam para a rua em bancas de vendas, tabernas e barbeiros curandeiros. Com o sol perto do alto, faziam-se poucos à estrada, muitos resguardados do calor nas lojas, outros empurrando a venda e as sacas tacteando as sombras e mais uns quantos desculpavam-se com o calor para exigirem canecas de vinho das Canárias. Martim contou pelo menos sete brancos entre os que passavam e destes um seria certamente florentino e outro espanhol, as bancas de vendas estavam ao cuidado de negros, que não se comportavam como escravos. Os comerciantes vendiam a outros negros, mais bem vestidos ao ponto de fazerem sombra aos arranjos do capitão-mor. As inquietações sobre as intenções de Martim duraram pouco na cabeça do grumete, para logo parar a contemplar a passagem das mulheres locais e mestiças, que apesar de tapadas, lhe pareciam mais nuas do que outra qualquer alguma vez vista. Os panos, por não serem armados, colavam-se ao corpo e balançavam com o andar. ‘Já estiveste com alguma?’ – Martim adivinhava a resposta, mas não quis deixar de confundir o rapaz. O outro nada disse, mas acenou que não com a cabeça e pôs um ar que, caso tivesse oportunidade para estar com alguma, nem saberia por onde começar.
‘Primeiro tens de tratar desse teu cheiro. Deves ter nascido com a roupa que trazes e o teu cabelo dá para fazer sebo’ – e riu. O grumete coçou a cabeça e riu também.', 'Quanta Terra', Filipa Martins