A maior viagem é aquela que nos leva às nossas origens.
Por Filipa Martins | Quarta-feira, 17 Junho , 2009, 11:05

Já vi invasões militares menos atribuladas e mais fáceis do que a minha ida à Fnac de Coimbra ontem, mas depois recebemos coisas destas no Facebook e achamos que vale a pena, um pouco como as mães sujas de papa até à alma que assistem à primeira palavra do cachopo…
 

 

Subject: XXXX

 
Olá Filipa;
Foi uma surpresa para mim conhecê-la. Eu vivo entre a Espanha e Portugal, por muitos anos, e uma dessas viagens, as chances de vida, Guimarães, onde eu parar, concordou com o seu livro e, especialmente, com o seu autora. É difícil me surpreende, (a cada dia mais estranho para encontrar pessoas especiais). Foi uma surpresa agradável.Eu tinha o desejo de contato e nosso encontro. Eu republicar meu décimo romance, "que ninguém conta" (ele seria o prazer de  podertela enviar), apesar dedicado à condição humana, sentimentos, emoções, a vida ... Eu tenho que confessar que me é muito incomum Surpreende-me. Você fez. beijos.
Nota;Desculpe o meu mau Português. Compreendo perfeitamente o idioma, mas o que eu escrevo bastaten regulares.
 


Por Filipa Martins | Quinta-feira, 21 Maio , 2009, 11:27

 

  

CONVITE
Lançamento do livro “Quanta Terra”, de Filipa Martins
Romance Oficial 7 Maravilhas Origem Portuguesa no Mundo
 
 

 

 

 

 Dia: 26 de Maio

Local: Fnac Chiado

Horas: 18h30


Por Filipa Martins | Quarta-feira, 20 Maio , 2009, 10:52

 

 

Ribeira Grande (Cidade Velha), Santiago, Cabo Verde

 

 

'Martim ficou a ver o irmão, até o carretão desaparecer ao cimo de uma ladeira pequena e depois de uma curva, e por muito que a consci­ência lhe mandasse sentir algum arrependimento, na cara apenas o sor­riso de quem tinha feito passar pedras por ouro. Caga-Chumbo olhava o capitão-mor com a admiração dos submissos, não lhe percebendo o com­portamento. Na cabeça do rapazote pouco sentido fazia que alguém que comandava uma armada, com ordens reais de rumar ao Novo Mundo, se quisesse fazer passar por um mendigo qualquer sem pai. Nisto pasmava enquanto seguia os passos de Martim até ao centro da vila. Já o fidalgo ia seguindo o barulho e o instinto e começou a subir uma rua onde pas­savam carros de bois lado a lado sem moléstia, ladeada por casas de dois andares, que se abriam para a rua em bancas de vendas, tabernas e bar­beiros curandeiros. Com o sol perto do alto, faziam-se poucos à estrada, muitos resguardados do calor nas lojas, outros empurrando a venda e as sacas tacteando as sombras e mais uns quantos desculpavam-se com o calor para exigirem canecas de vinho das Canárias. Martim contou pelo menos sete brancos entre os que passavam e destes um seria certamente florentino e outro espanhol, as bancas de vendas estavam ao cuidado de negros, que não se comportavam como escravos. Os comerciantes ven­diam a outros negros, mais bem vestidos ao ponto de fazerem sombra aos arranjos do capitão-mor. As inquietações sobre as intenções de Mar­tim duraram pouco na cabeça do grumete, para logo parar a contemplar a passagem das mulheres locais e mestiças, que apesar de tapadas, lhe pareciam mais nuas do que outra qualquer alguma vez vista. Os panos, por não serem armados, colavam-se ao corpo e balançavam com o andar. ‘Já estiveste com alguma?’ – Martim adivinhava a resposta, mas não quis deixar de confundir o rapaz. O outro nada disse, mas acenou que não com a cabeça e pôs um ar que, caso tivesse oportunidade para estar com alguma, nem saberia por onde começar. 
‘Primeiro tens de tratar desse teu cheiro. Deves ter nascido com a roupa que trazes e o teu cabelo dá para fazer sebo’ – e riu. O grumete coçou a cabeça e riu também.', 'Quanta Terra', Filipa Martins 

Por Filipa Martins | Segunda-feira, 18 Maio , 2009, 12:55

Diário de Notícias

Livro

'Maravilhas' inspiram romance de Filipa Martins

 

Lançado sexta-feira terá edição especial de 777 exemplares com pintura da artista Luzia Lage.

 

Filipa Martins, prémio revelação da Associação Portuguesa de Escritores (2005), inspirou-se no projecto Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo para o romance Quanta Terra, nas livrarias na sexta-feira, pela editora Guimarães.

 

"Quero agradecer à New 7 Wonders Portugal, pela loucura de apostarem numa autora jovem e sei que este projecto vai ser fundamental na minha carreira. Este romance vem dar um cariz emotivo a um projecto que já de si é emoti-vo, pois mexe com algo que é muito profundo, como as nossas origens. Este foi um trabalho colossal, em que seleccionei 7 monumentos que fazem a narrativa da história", explica a autora.

 

Além da edição dita vulgar, vai ser editada uma limitada e nu- merada do romance, de 777 exemplares, cuja capa conta com uma pintura da autoria da artista Luzia Lage.

 

 

 


Por Filipa Martins | Segunda-feira, 18 Maio , 2009, 12:38

Para ver, aqui (a partir dos 29'22'').

 


Por Filipa Martins | Quinta-feira, 14 Maio , 2009, 17:40

 

 

 

 

 

‘Nosso Senhor o quer pegar de todo’ concluiu Albuquerque, perante o desleixo do Sultão ao deixar o inimigo cirandar como os locais, não montando defesa. Não há provas de que Afonso de Albuquerque fosse mais abençoado do que qualquer um, não perdendo Deus tempo a segredar-lhe ao ouvido. Por outro lado, é de convir que a fome de pilhagem e a tentação que exerce sobre a pele e as vontades uma cidade cheia de riquezas nada tem a ver com o divino, sendo uma manifestação bem mais própria da carne do homem. Malaca era, à vista dos portugueses, a galinha anafada do vizinho, que se perdeu em quintal alheio. Só os estúpidos não carregavam. O governador fixou o ataque para o dia 25 de Julho. Restavam-lhes dois dias de espera, não mais do que isso sob pena de os marinheiros se aborrecerem. Pouco coisa entretinha aquelas almas e quanto mais conheciam do mundo, menos se espantavam com ele. As mulheres malaias, apesar de diferentes das que tinham tido, eram menos doces ou demasiado carentes ou aborrecidas, não porque fossem de poucas falas, pelo contrário, fiavam conversas intermináveis aos ouvidos dos marinheiros numa língua incompreensível e aguda, que os fazia tombar de bêbedos antes de tirarem as calças. Uma estratégia inteligente, se fosse premeditada. Não era o caso. Há povos que não são talhados para o romance.', 'Quanta Terra', Filipa Martins

 

 

 

Mais informações sobre Afonso de Albuquerque, aqui.

 

 

 


Por Filipa Martins | Terça-feira, 12 Maio , 2009, 10:34

'Diogo Castro não estava pior do que noutros dias, se nunca o seu estado foi bom e Mia o conheceu assim, carcomido na pele das pernas por uma ferida aberta e sem cura, mas tratada pelas mãos da filha do mercador quando ali veio pela primeira vez. Por agradecimento, o português cantou-lhe palavras que não entendeu, sopradas no pescoço descoberto e, desde esse dia, Mia pedia para o ver.

Os dois ficaram frente a frente até os guardas abandonarem o espaço e assim permaneceram, sem palavras, a sós. O português, por ter nojo de tudo onde metia as mãos ou onde estendia o corpo, apenas se aproximava do rosto de Mia o suficiente para lhe sentir o calor, não deixando que ela lhe tocasse a face ou sentisse o cabelo, como se entre os dois houvesse um vidro, dando a transparência ilusão de ser transponível. Os lábios dos dois tremiam neste processo, uma ou outra vez húmidos por lágrimas, próximos, mas não se tocavam. Depois o português apoderava-se do cheiro do pescoço de Mia e do odor libertado pelo peito, sem lhe sentir a suavidade, mas enchendo o diafragma de inalações fortes.', Quanta Terra, Filipa Martins

 


Por Filipa Martins | Sexta-feira, 08 Maio , 2009, 12:43

 

 

 

'Entre o medo e a fúria, o monarca mostrava-se muito mal-disposto. Incomodava-o que os portugueses tivessem escolhido aquele mês para fundearem sob o seu nariz, já que acabava de receber com honras e genuflexão o seu futuro genro, Rei de Pão, e passara as semanas anteriores a sedimentar a vontade de casório, ofuscando-lhe os olhos com as riquezas de Malaca, e a agradar às vaidades da filha, empenhada na preparação da cerimónia, que não devia tardar mais do que quinze dias. Se alguma vez o coração lhe foi assaltado por afectos, terá sido para satisfazer as vontades daquela filha, pois terá sido por ela que exigiu a boa vontade da população da cidade, convidada por despacho a enfeitar as ruas e os beirais da janela com símbolos de fecundidade, e assim o tinham feito os malaios com papel de cores em correntes e cisnes dependurados e outras tradições de vivas aos noivos, próprias daquela gente. A mando do Sultão, mercadores e negociantes e todos os outros encostavam-se às paredes e desviavam-se para dar passagem aos ensaios do cortejo nupcial, que só em damas de companhia ultrapassava as quinhentas, treinadas para a coreografia. Sendo as ruas estreitas, muitos tinham de trepar a postes embandeirados a rigor para o festim e aí ficavam por tempo que chagasse para as trompetas e os carros e os serviçais e os elefantes percorrerem a rua em marcha lenta ou pararem por descuido de algum, que logo levava chibatadas e voltava à formatura. Ficavam dependurados os malaios até gritarem de dores porque a terminar o cortejo seguia o carro dos noivos, aquele que seria usado para o Rei de Pão percorrer as ruas de Malaca em triunfo com a noiva, sustentado por trinta rodas e todo forrado a seda e incrustado a ouro, e não eram poucas as vezes que as ruas se mostravam estreitas e as curvas apertadas para tamanha carroçaria. O veiculo já tinha provocado alguns dissabores no frágil temperamento da noiva e muito choro agudo, que por chegar aos ouvidos do Sultão o fez mandar derrubar paredes e alargar caminhos, não se lembrando que o defeito pudesse estar no carro feito de demasiada soberba.', Quanta Terra, Filipa Martins

 

 

 

 


Por Filipa Martins | Quinta-feira, 07 Maio , 2009, 19:11

 

 

 

Dom João III

(mais informações, aqui)

 

 

 

Dona Leonor de Áustria

(mais informações, aqui)

 

 

 

 

 

'Viúva de um, desejosa de outro e prometida de terceiro, determinou recolher-se ao convento de Odivelas pouco passava dos 22 anos e tomou para isso as suas disposições, mas ficou-se pela vontade e pela satisfação do corpo. Na verdade, ainda não tinha despido a prenda da irmã e pouco escondia a vaidade de ter entalado as formas nas frágeis costuras francesas – ela que parira duas crianças em três anos –, já o herdeiro Dom João, acabado de se sentar no trono, em plena puberdade hormonal dos seus dezanove anos, desejoso de que a barba lhe crescesse com pujança para prefigurar como nos retratos que lhe conhecemos, subia as escadas do palácio, galgando dois degraus de cada vez até parar junto à porta do quarto da madrasta. Não esperou que a respiração se reorganizasse, nem que as gotas de suor formadas na testa escorressem pela tez até ao queixo, para abrir em par as portas dos aposentos. A Rainha foi apanhada numa surpresa falsa, cabelo desenleado sobre os ombros nus e pele lustrosa, e largou um gritinho agudo, enquanto fintava a perseguição tentacular do enteado. As vestes não eram dadas a correrias mas a damas que mantinham a compostura e, se o vestido não tinha cedido aos quilos sobejos da Rainha, vergou-se por fim à erecção do Rei. O acto não teve a duração mínima para constar da história e a dúvida sobre a consumação ficou nas consciências da criadagem. Nas ruas, vingava a teoria de que a Rainha, mais experiente, teria iniciado o enteado inábil e o povo, compadecido, pedia casamento.', 'Quanta Terra', Filipa Martins


Por Filipa Martins | Quarta-feira, 06 Maio , 2009, 19:49

  

 

 

'A selva, pensava Potira, é como um útero de mulher: só faz nascer quem tem contas a prestar ao mundo e entrega à morte os que não têm no futuro razões que os sustentem de pé. Muitos já saem sem vida de entre as pernas das mulheres, porque noutra existência causaram morte. Não há forma de limpar a matança da pele, senão morrendo à nascença. A selva leva a cabo o ajuste de contas com quem nela entra, fazendo troça da ambição de muitos, dando riquezas aos que pouco querem, matando com dor os que merecem, entregando ao sossego os que cumpriram, engravidando mulheres para servirem a história.', Quanta Terra, Filipa Martins


Por Filipa Martins | Terça-feira, 05 Maio , 2009, 20:07
Romance «Quanta Terra» inspirado nas Maravilhas Portuguesas


O romance de Filipa Martins, «Quanta Terra», que vai ser lançado dia 22 de Maio pela editora Guimarães, é inspirado no projecto Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Ver, aqui.


Por Filipa Martins | Segunda-feira, 04 Maio , 2009, 17:06

 

 

Capitania de São Vicente, Brasil

 

 

'De dentro da folhagem muito junta começaram a sair mais mulheres, de cabelo liso e negro, comprido pela espádua, ornamentado com flores e penas de aves exóticas, e a cobrir a pele tranças de cores pintadas sobre o peito e o sexo, e da coxa até ao quadril tintas de uma tintura preta, porque, no que toca às vaidades femininas, pouco importa em que paralela ao Equador nos encontremos, na Corte ou na selva, afloram as preocupações tolas com o burilar das formas. Traziam no regaço frutas e cuias de água doce, peixes escamados, carne crua de aves e o desflorar recente nos bicos dos seios duros. Outras mais velhas aproximavam-se tocando flautas artesanais, caminhando com pequenos curibocas no encalço. Entre todas, surge Tibiriçá que, pelo uso do cocar, a coroa dos índios, se distinguia aos olhos de Martim como o cacique do gentio. Também como os outros trazia o beiço de baixo furado e metido nele um osso branco e verdadeiro. Os marinheiros salivavam pelas mulheres e pelos alimentos, mas aguardavam o sinal do capitão-mor. ‘Estejam quedos’, foi obrigado a dizer o fidalgo. Os homens, cães contidos entre ferros antes da luta. João Ramalho satisfeito.', Quanta Terra, Filipa Martins

Por Filipa Martins | Domingo, 03 Maio , 2009, 10:29

 

Retrato (pormenor do óleo de J. Washt Rodrigues - Museu Paulista).

 

João Ramalho, explorador pioneiro do Brasil

1493 (?) - 1580 

  

 
'Do confronto saíram vencedores os menos selvagens, que aguentaram cem de pé, e dos outros feitos prisioneiros sete. Logo os cativos foram rodeados por dois laços de corda de liana, cada ponta puxada por um indígena. Seguindo assim em fila, de rojo ou a passo, por entre a folhagem até desaparecem e só restar o som de gemidos.
Martim estremeceu o corpo e João Ramalho, adivinhando-lhe os intentos de seguir o cortejo, fê-lo agachar-se ainda mais.
‘Não é boa altura, capitão’, garantiu. ‘Teremos de esperar pela noite se queres ver como homens comem homens’ – pousando a mão sobre o ombro de Martim.
‘E tu? Também já comeste homens?’, acaba o fidalgo por perguntar.
‘Não nego, assim fiz como eles, mas com maior agonia. Foi maneira de ser um deles e maneira de tu seres recebido nesta terra sem perdas ou sofrimento’, respondeu João Ramalho.', Quanta Terra, Filipa Martins
 
A confissão de João Ramalho, aqui.

Por Filipa Martins | Segunda-feira, 27 Abril , 2009, 20:43

 

Martim Afonso de Sousa

Martim Afonso de Sousa

Livro de Lizuarte de Abreu.

 

"O fidalgo de linhagem, comandante-mor da expedição, estava mais composto do que os outros, que se mostravam desgrenhados e famintos e com uma sede que os tentava a encher a boca e o estômago de goles de água salgada. Usava camisa de linho, sobre a qual vestia um gibão e sobre o gibão vestia uma jaqueta, prolongada em uma saia que descia até o quadril. Uma capa de mangas vinha sobre a jaqueta e, por fim, os calções curtos costurados a meias justas. A barba aparada apesar dos dois anos de mar, a pele queimada e os olhos escuros e fundos. Tudo isto era visto em detalhe pelas índias embevecidas, que trocavam sons desconhecidos mas entusiastas", Quanta Terra, Filipa Martins
 
 
Mais informações biográficas, aqui.
 
 

Por Filipa Martins | Sexta-feira, 24 Abril , 2009, 12:10

 

1. Como Martim Afonso de Sousa foi recebido em terras do Novo Mundo por João Ramalho, pai de dezoito, e como ele prometeu guiar o fidalgo e os seus homens até onde nasce o ouro.
 

 

A quantos essa minha carta de poder virem faço saber que eu envio ora a Martim Afonso de Sousa do meu conselho por capitão-mor da armada que envio à terra do Brasil e assim de todas as terras que ele achar e descobrir. E porém mando aos capitães da dita armada, e fidalgos, cavaleiros, escudeiros, gente de armas, pilotos, mestres, mareantes e todas as outras pessoas (...) que haja[m] ao dito Martim Afonso de Sousa por capitão-mor da dita armada e terras e lhe obedeçam em tudo e por tudo o que lhes mandar’. Carta enviada por Dom João III, dando jurisdição a Martim Afonso de Sousa sobre a armada e as terras do Brasil.
 
Brasil, Capitania de São Vicente
Reinado de D. João III, ano da graça de 1532 
 

As barbas chegavam-lhe a meio do tronco em ramagens engodilhadas – daí lhe vinha o nome João Ramalho – e serviam de represa ao sumo dos frutos, que descia dos cantos da boca. Comia em andamento, distribuindo catanadas pela vegetação grossa, num percurso que todos os sentidos tinham decorado. Faltando-lhe um, os outros entrariam ao serviço. Nesse dia, o caminho era feito com cuidado redobrado, a pedido de Potira. A esposa principal tinha tido um sonho premonitório, daqueles que lhe anunciaram o nascimento de dezoito filhos. Mas desta vez a mulher tinha acordado balbuciante e ensopada em suor, garantindo a chegada de canoas grandes cheias de gente, e obrigou-o a ver o seu reflexo na água de uma tina para lhe explicar de que gente se tratava. Eram brancos como ele os que apeariam nas praias. Há muito que João Ramalho ansiava por aquele dia, temendo embora que chegasse.

 

Numa ladeira mais íngreme de heras selvagens, donde avistava a enseada, sentou-se para recuperar o fôlego e pôr ordem nas ideias. Ia no encalço de uma onça matreira que levava nas noites sem lua as crianças da taba pela boca, deixando rasto falso de sangue nas folhas para enganar o entendimento dos índios. Examinou os pés embrutecidos e quedou-se no passatempo lento de retirar espinhos alojados na pele. Tempo suficiente para o companheiro de percurso o alcançar – depois de ter ficado para trás perdido no hábito de despernar escaravelhos, escarafunchar luras de lesmas e agitar ramadas na esperança de que a gravidade fizesse mais pela fome que sentia do que o esforço, gratificando-lhe a inteligência com a queda de um coco. Na verdade, a astúcia para o movimento dos membros era limitada, como foi naquele dia de maior corrente que virou a canoa e o viu afundar qual seixo, para ser salvo por um dos braços trabalhados de João Ramalho. As inabilidades com a água baptizaram-no Prego, não lhe servindo o corpo para se manter à tona.

 

Primeiro um agitar de ramos, para depois, entre a folhagem, surgir o símio de pata de escaravelho ainda a descoberto fora da boca entre os lábios esponjosos, e, num salto largo, quedar-se na cama de heras contemplativo. Quase humano nesta forma de pasmar, engana os mais crentes. A quietude pouco durou e, para sobressalto de João Ramalho e da passarada, vai de largar em guinchos e – porque não dizê-lo, se é de sua natureza? – em macacadas circulares de cauda eriçada, próprias de um ritual selvático, num desnorteio como se vivessem dentro dele deuses irados. O instinto animal adivinhava guerra.

 

 

 

 

 


Por Filipa Martins | Sexta-feira, 24 Abril , 2009, 12:03

 

 

Obrigada a todos os presentes, ontem, no pré-lançamento do livro 'Quanta Terra' no novo espaço da Ler Devagar no LxFactory.

 

 

 

Luis Segadães, N7W, Luzia Lage, artista plástica, Filipa_Martins, escritora, Paulo Teixeira Pinto, Guimarães Editores, José Pinho, responsável Ler Devagar.

 

 

 

 


Por Filipa Martins | Sexta-feira, 24 Abril , 2009, 11:55

 

‘Quanta Terra’ é um fantasia sobre os feitos dos portugueses do Oriente ao Novo Mundo, não tão grandiosa como a realidade, e outras tantas histórias de amor, que contam o desembarque de Martim Afonso de Sousa no Brasil e como a índia Portira deu à luz uma menina que não envelhece e como o grumete Caga-Chumbo fugiu de uma preta gorda na Ribeira Grande, em Cabo-Verde, e como os portugueses conquistaram Malaca, não sem antes Diogo Castro se ter enamorado e ter tido o primeiro desgosto de amor…
 
Quando me falaram da possibilidade de escrever um romance que desse um cunho emotivo ao projecto 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, achei que seria um feito próprio para Sísifo, habituado a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que caia mal atingia o topo da colina.
 
As 27 Maravilhas encerram em si cronologias, episódios e detalhes, que não me permitiram incluir, na mesma narrativa, toda esta complexidade e dispersão geográfica. Fiz uma selecção de sete locais, porque sete é o número mágico deste projecto, lamentando, porém, todos os outros que ficaram de fora.
 

Por Filipa Martins | Quinta-feira, 23 Abril , 2009, 17:20

Depois do Brasil, Cabo Verde, Malaca, Ormuz, Ilha de Moçambique, Macau e Goa... Pré-Lançamento de 'Quanta Terra - Romance Oficial 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo' (Quinta-feira, 23 de Abril, 21h30, na abertura na nova Ler Devagar no LXFactory).

 


O livro


a autora
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